Literatura: Os sete gatinhos

por Larissa Ribas

Oi, pessoal, sejam bem vindos. Toda quinta-feira este espaço vai ser reservado para conversarmos sobre temas literários. E, para estrear a coluna Literatura, começamos com Os sete gatinhos.

Não, esta não é uma historinha infantil. Longe de ser. Em Os sete gatinhos (Ed. Nova Fronteira,108 páginas, R$16,90), de 1958, ninguém mais, ninguém menos do que Nelson Rodrigues apresenta a história trágica de uma família “normal”: Aracy (mãe), Noronha (pai), Arlete, Hilda, Aurora e Débora (filhas mais velhas) e Silene (a filha mais nova).

A narrativa é construída em torno de Silene e sua suposta virgindade.  Segundo Noronha, pai complexado e grotesco, a filha mais nova representa o que tem de melhor na sociedade, seu único meio de afirmação: “Todo mundo inveja tua pureza! As meninas não são meninas, são femeazinhas. Só você é menina, só você” (RODRIGUES, 2004, p 52).

Para corresponder aos sonhos da família – leia-se estar de acordo com os padrões sociais vigentes-, Silene precisa estudar em um colégio interno de peso e se casar, virgem e intocada, com um quase príncipe. E, por isso, todos vão colaborar para ajudar a mais nova a comprar o enxoval. Até as irmãs. Noronha avisa: “O emprego das minhas filhas é uma máscara”. (p.60)

A verdade é que Silene, a virgem, está grávida. Para completar, é expulsa do colégio. Motivo: ter matado uma gata prenha a pauladas. E, pior, gata de quem ela dizia gostar.

Por que assassinar um ser em situação semelhante à sua? Raiva de si própria? Tentativa de matar algo dentro dela? Vingar-se da família, logo ela, o amorzinho do papai?

Ironia do destino, tragédia grega em tempos modernos, a gata morre e os filhotes nascem. Sete gatinhos. Sete vidas. Sete pessoas.

***

Muitas obras de Nelson Rodrigues tiveram sua releitura em diferentes mídias. A história de Os sete gatinhos alude a uma típica família patriarcal brasileira, da década de 50, em que autoridade, traição, incesto, ciúme, virgindade e morte compõem o cenário trágico de uma família desestruturada.

A primeira montagem do texto é de 1958 e conta com a participação de Jece Valadão no elenco. Em 1980, Neville D’Almeida dirige o filme homônimo e conta com a presença de Lima Duarte como Noronha, Antonio Fagundes como Bibelot, Ari Fontoura como Dr. Portella, Cristina Aché protagonizando Silene e Regina Casé como Arlete.

Vale lembrar que o filme ocorre em tempos de ditadura, momento em que a produção artística só era liberada como alegoria ou pornochanchada. O risco das adaptações em época de censura é reduzir as sutilezas da obra, as implicitudes da narrativa e as estratégias do autor a um texto apelativo.

Meu recado: sempre conhecer e valorizar a obra artística. Salve Nelson!!!

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5 thoughts on “Literatura: Os sete gatinhos

  1. Perfeito!Toda vez que ouvirmos ou lermos Nelson, antes de criticá-lo ou compará-lo a poronografia do século já passado, deveríamos lembrar que todos temos um pouco de 7 gatinhos, temos uma Lúcia de Vestido de Noiva ou até uma Alaíde….
    Parabéns Laguissa.rs
    Parabéns a todos vocês.Em breve postarei algo aqui, como me convidou…rsrs
    Bjs

  2. Parabéns Lari! Te adoro… Só me espanto de onde vc tira tempo hein? Para de inventar moda ou vai acabar dormindo 3 horas por dia, srrs Bjooo e sucesso amore mio. =)

  3. Gostei muito! Dá vontade de ler, de reler o Nelson…impressionante constatar que cada época
    tem sua neurose… e como se confunde amor com narcisismo, afeto com obsessão… Bom reconhecer para não repetir! Valeu. Lari ! 🙂
    Bjs, Cris

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