Literatura: O dia-a-dia no divã

Por Larissa Ribas

Despertador. Seis horas da manhã. Nem sempre, vai. Aliás, quase nunca.  Ele toca às seis e quinze em ponto porque a gente SEMPRE quer dormir mais quinze minutinhos. Aí sim a gente acorda, se levanta, toma banho, se arruma, toma café (quando dá tempo), se despede dos familiares (se tiver alguém acordado), dá bom dia para o porteiro e corre para o trabalho.

No caminho, nos estressamos com aqueeeele trânsito infernal do Rio de Janeiro, mas acabamos chegando na hora. OK. Nem sempre, vai. Mas a gente chega.  Após o trabalho? Mais engarrafamento. Enfrentamos a hora do rush por centenas de minutos até chegarmos em casa. Enfim, de volta ao lar. Tomamos um senhor banho, engolimos algo (sim, porque o cansaço costuma ser maior do que a fome) e  desmaiamos na cama.

Dia seguinte. TUDO de novo.  Leia-se “nós caimos na rotina”. Às vezes, a gente muda alguma coisa para fugir do cotidiano. Isso porque decidimos que precisamos “transformar” a nossa vida. Mas sabemos que não é fácil. O motivo de permanecer  TUDO SEMPRE IGUAL? Não se sabe ao certo. E para pensarmos nessa questão, nada melhor do que Divã  (Ed. Objetiva, 169 páginas, R$35,90), de Martha Medeiros.

“Sou tantas que mal consigo me distinguir. São muitas mulheres numa só, e alguns homens também. Prepare-se para uma terapia de grupo”.

Em Divã, Martha Medeiros aborda a vida de uma mulher com mais de quarenta anos que decide fazer terapia. Mercedes é a típica “mulher de família” que consegue dar conta da casa, do marido, dos filhos e da profissão (ela é professora de matemática).  E ainda sobra tempo para se dedicar a pintura.  É engraçada, inteligente, “certinha”, batalhadora e corajosa.  Corajosa no sentido de não ter medo de nada e de ter controle sobre tudo, até mesmo de seus pensamentos e emoções. Mas será mesmo?

Ao se deitar no divã, Mercedes se dispõe a enfrentar as “pequenas comédias e tragédias do dia-a-dia” (p.113) e revela seu desejo por uma vida desregrada, cheia de aventuras:

“A utopia de um mundo sem regras, onde todos agissem pelo instinto, virou o playground dos meus neurônios. Cansei do normal, quero fugir do estabelecido, do programado. (p.107)  Uma vida sem sustos. É o que desejo para mim. Não estou dizendo uma vida sem decepções, frustrações ou êxtases: sem susto, apenas. Quero aceitar a potência dos meus sentimentos e não ficar embaraçada diante de reações incomuns. Poder receber uma ventania de pé, mesmo que ela me desloque de onde eu estava. Dé pé, mesmo com medo. Não mais em posição fetal” (p. 113)

Como podemos perceber, Martha Medeiros constrói a narrativa de forma simples, divertida e envolvente. O livro é dividido em pequenos capítulos. Cada capítulo, uma consulta. Durante as sessões, Mercedes aborda assuntos diversos como a família, o divórcio, a perda de sua mãe, a infidelidade e a morte. A protagonista expõe seus sentimentos e, através da análise, aprende a lidar com as situações sem tanto sofrimento. Ao longo da narrativa, nós, leitores, que a princípio somos apenas observadores, nos tornamos personagens:  testemunhas dos conflitos e das crises existenciais de Mercedes, percebemos que também estamos deitados no Divã e, junto com ela, entendemos que é possível conviver com as frustrações, dificuldades, dúvidas, inseguranças e castrações impostas pela sociedade.

“Meus quadros não tem tanta importância, não busco a celebridade, eles me distraem de mim, e , ao mesmo tempo, me revelam.” (p.120)

Já olhou o seu relógio? São 19 horas. Tenho que ir agora. A vida me chama. Na quinta eu volto.

***

A obra de Martha Medeiros teve sua releitura no teatro, no cinema e na televisão.

Em 2003, logo após ler o livro, Lilia Cabral decide montar a peça Divã. Com ajuda de Marcelo Saback, a atriz adapta a história de Martha Medeiros e interpreta Mercedes. A direção é de Ernesto Piccolo.

A repercussão é grande. A peça fica em cartaz por três anos e conquista três indicações ao prêmio Shell carioca em 2005: melhor atriz (Lilia Cabral), melhor ator (Marcelo Valle) e melhor diretor (Ernesto Piccolo).

Além disso, após assistir o espetáculo, José Alvarenga Jr. convida Lilia Cabral para interpretar Mercedes no cinema. Em 2009, estréia o filme Divã, um sucesso de bilheteria. O público é tão grande que abre espaço para o longa em um blog http://www.divaofilme.com.br/blogdiva/

Após atingir um número significativo de espectadores, Marcelo Saback opta por criar oito episódios de Divã para a TV. Sob a direção de José Alvarenga Jr e Fabrício Mamberti, Lilia Cabral protagoniza mais uma vez a personagem Mercedes. A direção de núcleo é de Jayme Monjardim.

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