Música: Quando o rotineiro surpreende

Uma das definições de rotina no dicionário Aurélio é “Hábito de fazer uma coisa sempre do mesmo modo“. Apesar da má fama, há algo de bom em fazer sempre a mesma coisa.   Longe de indicar falta de criatividade, ela pode virar uma marca registrada dos artistas.

Assim como os fãs de Hitchcock assistem aos filmes do diretor atentos ao momento em que ele vai aparecer , os fãs da banda inglesa The Smiths esperavam seus álbuns e singles não só pela música, mas por causa das capas.

Ao invés da típica foto da banda, os álbuns do Smiths sempre exibiam  fotos de modelos, atores, celebridades ou pessoas que apareciam na imprensa. Eram imagens que inspiravam Morrissey, o vocalista da banda.

The Smiths [1984]

Na capa do primeiro álbum do Smiths, a imagem de Joe Dallesandro, estrela do filme Flesh, de Andy Warhol, sem camisa e com o cabelo loiro cobrindo os olhos foi talvez um olhar muito crítico à sexualidade do próprio Morrissey. No filme, Dallesandro interpreta um traficante bissexual que tenta juntar dinheiro para o aborto da sua esposa.

Meat is Murder [1985]

Meat is Muder, é o álbum mais abertamente política do Smiths. A imagem do soldado que aparece na capa  é do documentário In the Year of the Pig ( 1968), que contextualiza  e critica a participação americana na Guerra do Vietnã. Como vocês podem imaginar, não era essa a mensagem no capacete do soldado, mas igualar a carne a um assassinato tinha muito mais a ver com o vegetariano Morrisey. O álbum também critica  a monarquia ( com “Nowhere Fast” )e a violência ( nas músicas “The Headmaster Ritual” e “Barbarism Begins at Home”).  Além disso, a capa vinha divida em quatro quadrados, numa nova referência à Warhol.

The Queen Is Dead [1986]

Um dos álbuns mais famosos da banda, The Queen Is Dead tem na capa uma imagem do filme L’insoumis (1964), de Alan Cavalier. No filme, Thomas, um desertor da Legião Estrangeira francesa, vem em auxílio de Dominique, uma mulher refém de terroristas. O ator Alain Delon (que interpreta Thomas) é mostrado aqui no momento em que está entre as autoridades francesas e os terroristas que mantinham Dominique em cativeiro. Fora de contexto, é uma imagem “smithiana”: uma mistura de paixão e desinteresse, de um personagem que parece não suportar o peso do mundo.

Strangeways, Here We Come [1987]
A imagem do homem olhando timidamente para o chão é de Richard Davalos durante as filmagens de East of Eden (Vidas Amargas, 1955). Há algo no sentimento de obediência de Davalos no filme que se expressa nas músicas de Smiths – quase conservadora na sua apresentação, mas não necessariamente ordeira. Assim como o personagem de Davalos, a postura da banda indicava algo entre o aceitável e o proibido. Não por acaso, o nome do álbum faz referência à uma prisão em Manchester, Strangeways. Traduzido literalmente, Strangeways, aì vamos nós.

Além dos álbuns, grande parte dos singles e compilações mostravam um homem jovem com feições delicadas e com olhar perdido. Nenhuma das artes são abertamente sexualizadas, mas todas revelam com recato um senso de masculinidade ambíguo– da mesma forma como Morrisey se mostrava em público, o que só fazia aumentar as dicussões sobre a sua sexualidade. No geral, todas as imagens transmitem uma sensação que refletiam o som da banda: blasé e apaixonado, sedutor e evasivo, sofisticado, mas em sintonia com a classe média.


No sentido horário: Leo Ford, astro pornô gay, na capa do single Hand in glove (1983); Os atores britânicos Vanessa Redgrave e David Hemmings no filme Blow up – Depois daquele beijo (1966), capa do CD-single How soon is now? (1992); O ator Sean Barrett no filme Dunkirk (1958), na primeira capa do single How soon is now? (1985);  O escritor Truman Capote, capa do single The boy with the thorn in his side (1985); O ator americano Richard Bradford, capa do single Panic (1986);  O ator Jean Marais no filme Orfeu (1949), capa do single This charming man (1983).

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