Literatura: “O viajante imóvel”

por Larissa Ribas
Bom dia, pessoal! Apesar de o tema ser homens, este não é um post só para a mulherada. Pelo contrário, a força masculina também é bem-vinda.

Também não vim falar sobre a vida de muitos homens. Para esse próximo texto, decidi focar em apenas um: Joaquim Maria Machado de Assis – filho de um escravo e de uma lavadeira – menino que aprendeu a ler sozinho e em pouco tempo se tornou um marco na história da Literatura.

Machado de Assis

Há cento e três anos, o universo da literatura perdeu uma de suas maiores estrelas. Machado de Assis, um dos nomes mais importantes da literatura, faleceu no dia 29 de setembro de 1908. Esse tempo, porém, não foi suficiente para apagar seu brilho: ao contrário, suas narrativas compostas de ironias, frases e capítulos curtos, silêncios, “conversas com os leitores” e críticas à sociedade hipócrita, revelam o caráter inovador e universal de Machado.

Fundador (1897) e presidente da academia brasileira de letras (ABL), amante da Língua Portuguesa, foi influenciado por mestres da Literatura como Shakespeare, Schopenhauer, Allan Poe e Cervantes, além de inspirar escritores como Drummond e Graciliano Ramos. Sendo assim, ninguém melhor do que ele para ter seu nome atribuído a um espaço na ABL. O “Espaço Machado de Assis” foi criado em 1999, com o objetivo de as pessoas terem acesso às obras machadianas e poderem difundir seu universo. Além do acesso à biografia, às obras do escritor e aos recursos audiovisuais, são exibidos exemplares dos móveis e objetos do acervo de Machado. O painel Machado de Assis, criado em 2000, pelo artista plástico Glauco Rodrigues também é exibido na galeria de exposições.

Nas últimas décadas há diversos projetos envolvendo o escritor e suas obras, o que prova a atualidade de Machado. Um destes projetos foi a adaptação do romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881) para o cinema: o filme homônimo dirigido por André Klotzel (2000). O longa traz no elenco Reginaldo Faria no papel de Brás Cubas e seu fantasma, Marcos Caruso como Quincas Borba e Sônia Braga como Marcela. Abriu a terceira edição do Festival Internacional de Cinema de Brasília, além de ser exibido no Festival de Berlim de 2001. Recebeu prêmio de melhor roteiro, melhor direção, melhor atriz coadjuvante (Sônia Braga) e melhor filme segundo o júri oficial, além do prêmio de crítica no Festival de Gramado de 2001. Outro exemplo é o filme “Quanto Vale ou é Por Quilo?” (2005). A mescla de livre-adaptação do conto “Pai contra a mãe” com crônicas de Nireu Cavalcanti, dirigida por Sérgio Bianchi, recebeu prêmios de melhor filme – Júri Popular, diretor e edição no Paraty Cine. Os nomes das personagens já demonstram a habilidade de Machado com as palavras. No conto “Pai contra a mãe”, por exemplo, o nome Clara é usado para ressaltar, pelo avesso, o racismo que existia no século XIX.

O livro chamado “Para compreender Machado de Assis”, voltado para o público infantil, também confirma o interesse pelo escritor. O objetivo das autoras Anita Correia, Keila e Lucia Grinberg é mostrar, através de uma obra fictícia, quem é o escritor, explicar a linguagem machadiana e fazer com que as crianças entrem em contato com o universo Machadiano desde cedo.
Na Câmara, em 2004, foi lançado o livro “Machado de Assis: Conto de Escola e Outras Histórias Curtas”, de Edmilson Sobreira Caminha Junior, Presidente do Conselho Editorial da Câmara dos Deputados (2004-2006). Em Maio de 2006, Machado foi lembrado no aniversário de 180 anos do Senado, nas reportagens sobre aqueles que participaram das histórias do parlamento. O escritor foi homenageado, afinal, aos 20 anos, trabalhou para o jornal do senado e, mais velho, escreveu o conto “O velho senado”. O senador Marco Maciel, do PFL de Pernambuco, apresentou um projeto de lei com o objetivo de instituir o ano do centenário de morte do escritor, como o Ano Internacional de Machado de Assis.

O ano de 2008, portanto, poderá levar os brasileiros a pensar sobre este mestre da Literatura. Onde reside, afinal, a força de Machado? Como suas obras permanecem modernas se são, ao mesmo tempo, eruditas? Por que Machado de Assis é considerado atual, se faleceu há cem anos? A resposta talvez possa ser encontrada na sua linguagem expressiva e na peculiaridade de sua narrativa. Suas obras, regadas de expressões que criam imagens, como por exemplo, os “olhos de ressaca” de Capitu e o “defunto autor e não autor defunto”, do romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

O silêncio era outra estratégia discursiva: o drama de Capitu e Bentinho se tornou a obsessão da maioria dos leitores e o senso comum insiste na questão do traiu ou não traiu – o que é uma artimanha a mais do escritor. Outra característica é a tradição da narração que dialoga com o leitor, ora elogiando e convocando (“caro leitor”), ora ridicularizando ou menosprezando (“gente frívola”). Machado escrevia com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia” (Memórias Póstumas de Brás Cubas) – e nesse jogo fazia a crítica da sociedade. A voz do narrador é um ácido corrosivo nas bases do pensamento e dos condicionamentos da sociedade da qual ele mesmo fazia parte. A ironia machadiana atinge o leitor: “A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te agradar, pago-te com um piparote e adeus.”(Memórias Póstumas de Brás Cubas).

Esta parece ser a explicação mais evidente para a contemporaneidade de Machado. O escritor permite que as pessoas se identifiquem com as personagens e com suas histórias. Assim, torna-se universal ao possibilitar o leitor de enxergar sua vida nas situações que promove. Apesar dos cento e três anos de sua morte, Machado de Assis permanece vivo.

 

 

 

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