Nostalgias Infantis

Muitos intelectuais se sentiriam constrangidos ao serem obrigados a falar da infância. Não por terem vergonha do passado, mas pelo medo de parecerem piegas demais, o que pode ser sinal de fraqueza. Afinal, de um intelectual a gente espera atitudes mais racionais e menos emotivas, não é mesmo? Besteira.

Só entende o significado da palavra nostalgia quem viveu e aprendeu a preservar na memória a lembrança dos bons momentos. E arrisco a dizer que quando se é criança, ou mesmo naquela fase em que os cabelos brancos não param de crescer (Os meus então são precoces!), esses momentos só existem quando podemos contar com a presença de um amigo por perto.

Não são poucas as teorias que falam sobre a importância da amizade. A maioria delas está fundamentada numa lógica bem simples: a predisposição que o ser humano tem para se socializar. Mas quem tem amigos, sabe que ele não é só alguém com quem a gente convive. É alguém que a gente precisa para viver. Viu, eu não disse iria parecer piegas?! E olha que estou a passos largos de um intelectual, sem falsa modéstia.

A verdade é que, mesmo inconscientemente, a gente aprende a dar valor à amizade ainda muito cedo. Bendito o seja! Até o mais tímido dos indivíduos precisa daquele companheiro inseparável.  Não é a toa que muitas crianças, na ausência de um coleguinha, – ou porque está sempre mudando de cidade, ou porque se sente insegura para se relacionar com o outro – acabam criando um amiguinho imaginário. Este então vira parceiro de muitas aventuras, uma dupla imbatível.

Agora, não se engane: amigo de infância não precisa ser gente. Pode ser aquele bichinho de estimação comprado na loja de animais, ou aquele filhotinho abandonado que você encontrou na rua e não resistiu ao impulso de levá-lo para casa. E depois de tanto tempo, você não entende muito bem porque ele ainda faz ‘festa’ quando você volta do trabalho. Porém, ambos continuam a achar tudo uma graça.

Entre os amigos de infância, há espaço também para aqueles objetos que julgamos inseparáveis. Pode ser aquele livro que você leu aos sete anos, o álbum de figurinhas quase completo que você ganhou de seu avô, a bola de futebol que você escondia debaixo da cama pra ninguém pedir emprestada ou aquela boneca que ‘hoje não se fabrica mais’. Sabe como é, cada um decide onde, em quem ou no quê deposita seu afeto.

É um erro também pensar que amigos de infância precisam ter a mesma idade. Pode ser o pai transformado em super herói, o irmão mais velho imitado escondido, a mãe que a gente espera sair, só para pegar as suas roupas e ir pra frente do espelho para passar a MESMA maquiagem. Pode até ser aquela professora que não hesitava em por de castigo porque a lição de casa ficara em branco, mas que na festa de aniversário aparecia para tirar uma foto e entregar um presente ‘maneraaaaaaaaaaaaço’!

Não dá para falar de infância e não lembrar dos amigos. Normalmente, eles não fazem o tipo intelectual, contudo, ensinam lições que você carrega para vida inteira. Abaixo, algumas das que para mim foram inesquecíveis:

1)     Ele te convence a trepar numa árvore e só depois que você alcançou o galho mais alto é que ele resolve contar que não sabe como fazer para descer;

2)     Ele devora a metade do seu sanduíche na hora do recreio, mas no fim de semana te paga um sorvete, porque você torrou todo o dinheiro da mesada mesmo;

3)     Ele enfrenta o valentão da escola só porque você é um ‘frangote’, e não deseja que você passe o vexame de apanhar sozinho na frente da escola;

4)     Ele te ajuda com o exercício de matemática e depois, como quem não quer nada, pede pra você fazer a lição de português;

5)      Ele pede pra mãe dele, falar com a sua mãe, para pedir para o teu pai, que por sinal é muito bravo, liberar você do castigo, já que você é a única pessoa que ele tem para brincar, apesar de o vizinho ter pelo menos meia dúzia de filhos;

6)     Ele te tapeia no vídeo game, troca as cartas do baralho quando você não está olhando, mas faz questão de mudar as regras do jogo para as outras crianças da rua não ganharem de você;

7)     Ele compra um tênis igualzinho ao seu, a mochila da mesma cor que a sua e a bicicleta da mesma marca, para ninguém ter dúvidas de que vocês ‘têm tudo a ver um com o outro’;

8)     Ele assopra teu joelho esfolado antes e depois de passar o mertiolate (na minha época, o remédio ardia).  Mas na hora ‘h’ ele fica boquiaberto, espantando com a gritaria que você está fazendo por causa de um machucadinho ‘de nada’;

9)     Ele não esquece o dia do seu aniversário, nem de cantar parabéns pra você. Só não se lembra de comprar presente, afinal quem tem um amigo como ele precisa de mais o quê?

10) Ele continua a te considerar o melhor amigo, não importa o quão longe você esteja e a vida tenha seguido caminhos diferentes. E se porventura vocês se encontram, repetem as mesmas histórias, riem das mesmas piadas sem graça e compartilham aquele velho abraço.

Bons tempos, boa semana, excelente segunda-feira.

 

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3 thoughts on “Nostalgias Infantis

  1. Caprichou hein garota!!!Ficou linda essa matéria…snif
    Me fez lembrar uma época boa…
    bjosss
    Louca pra ler a próxima.

  2. A melhor época da vida…pelo menos a melhor época da minha vida,onde eu fiz os melhores amigos que alguém pode ter.Saudades de vc Helo, minha AMIGA de toda uma vida ….
    Hehehehe…agora posso contar pra todo mundo que também contribui pro blog!!!

  3. Oi kathy, oi Cris. É um prazer receber a visita de vocês. Geograficamente estamos um pouquinho longe, mas espero que a gente possa usar o blog para se encontrar mais vezes! Abs.

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