Bruxos e Vampiros Made in Brazil

Salve,

A entrevistada desta segunda-feira é a escritora e jornalista Renata Ventura, que na próxima sexta-feira (18/11) lança seu primeiro livro, A Arma Escarlate. A história se passa na Favela Santa Marta, onde o adolescente Hugo, de 13 anos, descobre durante um intenso tiroteio que é… bruxo! Na trama, além de traficantes e bruxos dividindo o mesmo espaço, entram em cena também os VAMPIROS. Portanto, leitor, solte a imaginação e curta a entrevista.

Blog 7em1: Apesar de ser um livro ficcional, A Arma Escarlate aborda questões sociais, como a favelização e a violência nos morros cariocas. Que tipo de reflexão você pretende propor com o livro?           

Renata Ventura: São muitas reflexões. Não posso contar as mais importantes aqui, pois revelaria muito do livro. Mas uma das questões que abordo é exatamente como cada pessoa lida com essa violência em suas vidas. Hugo, meu personagem principal, morou a vida inteira na comunidade Santa Marta, convivendo com tiroteios constantes, bandidos e a imagem do tráfico como um centro de poder. Ele introjetou essa violência no comportamento dele e, para sobreviver nesse ambiente, virou um garoto arisco, que está sempre na defensiva, sempre achando que estão contra ele. E então reage, nem sempre da forma mais delicada. Ao mesmo tempo, há a mãe dele, que também sempre viveu em meio a essa violência, mas que se tornou uma mulher forte, correta, trabalhadora. Então, pode-se dizer que meu livro mostra um pouco que a violência não é o grande determinante na vida de alguém, que não é só porque uma pessoa mora na favela que ela necessariamente vai virar um criminoso. A grande maioria é trabalhadora e abomina a violência. Hugo é quem ainda está lutando com isso dentro dele.

Blog 7em1: O cenário da trama é a favela Santa Marta. Como você adaptou a realidade da periferia na construção do enredo?

Renata Ventura: Como o livro se passa em 1997, eu precisei fazer muita pesquisa sobre como era a comunidade Santa Marta naquela época, e muito do que aconteceu naquele ano conturbado eu retratei no livro. Alguns dos personagens que aparecem são adaptações diretas de pessoas reais que frequentaram os noticiários daquele período.

Blog 7em1: Hugo descobre que é bruxo durante um intenso tiroteio. Em que ele se diferencia de outros bruxinhos criados na ficção?

Renata Ventura: Hugo tem um comportamento um pouco mais complicado do que o Harry Potter, por exemplo, até por causa de seu passado bem mais violento. Ele começa o livro com 13 anos, mas já tendo visto assassinatos, espancamentos, torturas… tudo de pior que um ser humano é capaz de fazer a outro. E, como ele foi obrigado a se adaptar, ele é mais safo na hora de se defender, mais malandro quando precisa sair de uma situação de aperto, mais agressivo quando se sente ameaçado. Ao mesmo tempo, exatamente por esse passado, ele não consegue se desconectar da realidade e se entregar com toda a força ao mundo novo de magia que acabou de conhecer. Ele não consegue se livrar do peso daquela realidade. Então, a realidade acaba invadindo de certa forma o mundo mágico, bagunçando um pouquinho as coisas.

Blog 7em1: Há algumas referências claras no seu livro a respeito do trabalho de J.K. Rowling, autora de Harry Potter. Não teme comparações? 

Renata Ventura: Comparações serão sempre feitas; impossível evitá-las. Mas eu torço para que sejam comparações construtivas. Torço para que vejam a subversão nas semelhanças entre meu livro e os livros dela. Eu, de fato, insiro em meu universo brasileiro de magia alguns dos elementos que estão em Harry Potter, porém faço isso exatamente para subvertê-los; eu brinco com eles, adicionando a pitada brasileira, que faz toda a diferença. Torço, enfim, para que as análises sobre meu livro sejam sempre em relação às reflexões que eu quis fazer, e não simplesmente críticas ao fato de eu ter me inspirado nesse ou naquele livro de fantasia.

Blog 7em1: Outra personagem que aparece na trama são os vampiros. Assim como Hugo, eles reúnem alguma característica cultural associada aos brasileiros? Quais?

Renata Ventura: Neste primeiro livro só haverá alguns vampiros, mas pretendo aumentar a participação deles nos livros seguintes, adicionando outros personagens. Na comunidade vampírica do Rio de Janeiro, muitos dos vampiros são estrangeiros que vieram ao país para curtir a noite carioca e acabaram se estabelecendo. Desses que já estão há mais tempo por aqui, há um em especial que já se tornou genuinamente carioca. Quanto a vampiros criados no Brasil, certamente aparecerão alguns ao longo da série, contudo não nesse primeiro livro.

Blog 7em1: O tema vampiros, ultimamente, tem sido muito explorado, tanto na literatura quanto no audiovisual.  A que (ou quem) você atribui esse crescente interesse pelo assunto?

Renata Ventura: Vampiros são seres fascinantes. Talvez por isso volta e meia surja uma nova onda de pessoas interessadas neles. São sedutores, imortais, cheios de dilemas, alguns com séculos em seus ombros… como não gostar deles? E há todo tipo de vampiros: os maus, os melancólicos, os românticos, e agora até os vegetarianos (risos). O tipo que mais me atrai é aquele que batalha contra seus instintos assassinos, mas que nem sempre consegue vencer essa luta. E que sofre por causa disso. É aquele paradoxo delicioso: ao mesmo tempo em que amam os humanos, são capazes de destruí-los.

Blog 7em1: A publicação de A Arma Escarlate é o início de uma série com o personagem Hugo ou você pretende escrever histórias com outros personagens? 

Renata Ventura: Eu pretendo escrever cinco livros sobre o Hugo, com espaço para mais um sexto, caso os leitores queiram saber a história conturbada do vilão principal da saga!  Tomara que vocês gostem!

E você leitor, acha que tem espaço para o personagem Hugo no cobiçado mundo da literatura?  Conte para mim nos comentários.

11 thoughts on “Bruxos e Vampiros Made in Brazil

    • Não sei qual é a mania de achar que o que é de “FORA” é bom, pq se formos ver bem harry potter é uma cópia descarada de “Narnia”, Senhor dos aneis e de qualquer livro que se passa num colegio interno inglês.

      Já para não falar dos vampiros …

      • Bem, eu não posso falar desse livro pq ainda não o li, mas o que tenho visto de jovens autores nacionais tem me decepcionado MUITO pela linguagem rasa e pela enxurrada de clichês.

        Espero realmente que o da Renata não seja assim, e espero ter a chance de ler logo, mas o que acho é que a gente tem que valorizar um livro porque ele é BOM, sabe? Independentemente se é nacional ou “de fora” como vc disse, literatura de qualidade pra mim pode vir de qualquer lugar.

        E, ah, entre Harry Potter e Senhor dos Aneis há um oceano de distância, pelo menos para mim.o_O

    • Oi, Lucas! Por favor, não critique sem ler… isso nunca é legal. Eu criticava pra caramba o Harry Potter e, quando eu fui ler, mordi a língua. Achei maravilhoso. E coitado do Hugo, ele não tem culpa de ter sido criado por mim! rsrsrs Por que você já não gosta dele?🙂 Inclusive, o Hugo é o completo oposto do Harry.

      Quanto à acusação de plágio, eu posso dizer que o Harry Potter foi uma grande inspiração. Mas, assim como a J.K. Rowling pegou emprestado vários elementos de inúmeros livros e juntou-os para escrever Harry Potter, eu também fiz o mesmo, pegando emprestado elementos que ela pegou emprestado (nunca elementos que ela mesma criou), e juntando com os elementos brasileiros.
      Escolas de bruxaria já existiam antes de Harry Potter, assim como varinhas, vassouras e quadros que se mexem. Tudo isso, ela pegou emprestado de outros livros.
      O que eu quis foi fazer uma homenagem à querida J.K., que eu tanto admiro, e ao mesmo tempo, falar de nosso país, de seus problemas, de sua história, de seu povo. Tomara que vocês gostem!
      bjs,
      Renata

  1. Oi, Marcelo! Inclusive eu falo disso no livro, dessa nossa mania de só gostar do que vem de fora!🙂 Eu brinco um pouco com isso. Inclusive porque meu livro tem como inspiração “algo que vem de fora”, então é uma contradição interessante😀 rsrsrs

    • Renata tambem escrevo um livro com o tema Vampiros e outros personagens.. Vc me indicaria uma editora? E-mail….. Seria o primeiro passo para publicar.. Boa sorte.

      • Oi, Gaa! Legal! Já terminou de escrever seu livro?😀 Eu sugiro que, antes de enviar para qualquer editora, você registre seu livro no escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional e depois envie para algumas pessoas lerem: uma professora de português (se possível), algumas pessoas que façam parte do seu público alvo e algum leitor crítico, que te dê dicas de como melhorar o livro!🙂 Isso vai aumentar suas chances de uma editora escolher seu livro para publicação! Qualquer dúvida, fala comigo! a.arma.escarlate@gmail.com 🙂

  2. Como responsável pela coluna Sociedade, não posso deixar de dar minha opinião. Particularmente, eu acho que existe muito preconceito sim, com a literatura brasileira, principalmente os clássicos. De fato, eles não têm uma leitura ágil como as narrativas de hoje, daí porque provocam muito desagrado. Porém, quando se lê um livro, é importante ter em mente que ele não conta apenas a história de um personagem, mas também revela muito sobre o autor e até mesmo aspectos de uma sociedade ou de uma época. E nesse ponto, concordo com a Renata, a gente nunca deve criticar antes de ler, de se dar ao trabalho de conhecer. Acho triste pensar que muitos autores importantes como Machado de Assis, Fernando Sabino, Jorge Amado, entre outros, não são conhecidos por muitos brasileiros. Ademais, tem uma geração de escritores super CONTEMPORÂNEOS NACIONAIS que fazem um mega sucesso. É só ter curiosidade para procurar, descobrir e talvez até se encantar. E assim como a Fabíola, acredito que uma boa história independe de nacionalidade. É um ufanismo estúpido (e qual não é?!) acreditar que só escritores brasileiros têm valor. Principalmente, porque um dos benefícios proporcionados pela leitura é o de aproximar as pessoas. Então, leiam sempre, até para terem condições de discernir sobre o que é bom e o que desagrada. Quanto à A ARMA ESCARLATE, confesso que não li, mas só dele ter provocado tais reflexões, já acho válido. Sinal de que estamos preocupados com a qualidade dos livros que chegam até nós. Quem sabe não é o caminho para que outros autores de excelência saiam do anonimato?! Bjs, Helô!

  3. Pingback: Convidados do 7em1 na Retrospectiva 2011 «

  4. O livro pode ser um sucesso… Ainda mais com esse tema.. Sou fa de vampiros e bruxos.. Mas nao acho que esses personagens sejam de um escritor e ponto. Ninguem copia o tema.. Apenas gosta.

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