Música: Carta de achamento do Brasil

Se Pero Vaz de Caminha chegasse hoje ao Brasil, o que ele relataria à Vossa Alteza?


Senhor,

Posto que Capitão-mor desta vossa frota, escrevo a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova. Tentarei dar minha conta disso a Vossa Alteza o melhor que eu puder, ainda que – para o bem contar e falar -, o saiba fazer pior que todos. Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para alindar nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.

Quarta-feira, 22 de abril: Neste dia, a horas de vésperas, houvemos vista de terra! O capitão pôs nome de a TERRA DA VERA CRUZ. E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos direitos à terra, indo os navios pequenos diante. Dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito.

Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Tocavam uma música ritmada e repetitiva. Ali não pôde haver entendimento de proveito, pois que usavam palavras desconhecidas. Eis aqui uma amostra do que vos falo.

Sexta-feira, 24 de abril: Às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar âncoras e fazer vela; e fomos ao longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados à popa na direção do norte. Lá, ademais dos tipos com penas, encontramos um grupo que tocava uma música diferente. Dão nomes bem distintos para as bandas, como Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta e Maglore. Uma cantora se chama Pitty! Hei de saber um dia o que tudo isso significa. Não são muito populares entre sua gente.

E, velejando nós pela costa em direção ao sul, chegamos a uma terra bonita, cheia de montes bem vistosos. No alto de um, nosso bom Jesus espreitava. Também encontramos homens e mulheres com pouca vestimenta. Também aqui não fazem o menor caso de encobrir suas vergonhas. A música que lá encontramos é bem diferente da que ouvimos na terrinha. Cuicas, pandeiros, tamborins e cavaquinhos fazem sambar lindas morenas e senhores galantes.

No alto dos morros a batida era um pouco diferente. Eles chamam de pancadão, deve ser o efeito em nossos ouvidos. Ali por então não houve mais fala nem entendimento com eles, posto que não se entendia nem ouvia ninguém. Acenamos-lhe que se fossem; assim o fizeram e passaram-se além do rio.

Ao sábado pela manhã mandou o Capitão fazer vela, e fomos mais ao sul de vossa terra. Por lá encontramos indivíduos com vestimenta colorida e corte de cabelo que nunca tinha visto antes. Mais adiante encontramos aquele lourinho que tocou para vossa senhoria mais cedo este ano. Ele ainda não tem outra música, mas aqui faz muito sucesso. Prometeu retornar à nossa querida terra quando os locais pararem de cantar o sucesso do verão.

E desta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E, se algum pouco me alonguei, me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, me fez pôr assim tudo em miúdo.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 2012.

Pero Vaz de Caminha

 

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