Três em um

Este não é um post sobre um livro, mas quase. Sabe quando você lê um livro atrás do outro e as histórias começam a se confundir? Já teve a sensação de que dois personagens, criados por autores diferentes, poderiam fazer parte de um mesmo livro? É isso o que acontece quando você lê Pastoral americana, de Philip Roth; Liberdade, de Jonathan Franzen; e Solar, de Ian McEwan.

Três nomes de peso da literatura anglo-saxã contam a história de anti-heróis numa época em que impera a hipocrisia e a ruína dos valores tradicionais. Três histórias distintas, com narrativas da melhor qualidade, que poderiam estar reunidas num único livro. Sorte a nossa que não foram.

Em Pastoral americana, Philip Roth narra os esforços de Seymour Levov para manter de pé seu sonho americano. Filho de imigrantes judeus que deram duro para subir na vida, Seymour tenta em vão comunicar um legado moral à terceira geração da família Levov. Ao longo da narrativa descobrimos que Seymor tem uma filha que abriu mão de todos os privilégios de pertencer à classe média, uma esposa que não o ama, e que seu heroi de infância não passa de um homem comum. A força de sua obstinação em defesa de uma causa perdida lhe confere um  caráter, ao memo tempo, heróico e louco.

Liberdade, de Jonathan Franzen, gira em torno de três protagonistas. Não por acaso, o livro foi saudado como um painel amplo e profundo da sociedade americana contemporânea. Walter e Patty Berglund formam, junto com os filhos adolescentes Joey e Jessica, uma típica família norte-americana liberal de classe média. Richard Katz é um roqueiro descolado que tenta fugir da fama que tanto buscava no passado. Os três se conhecem no final dos anos 1970, na Universidade de Minnesota, e a partir daí suas vidas se entrelaçam numa complexa relação de amizade, paixão, lealdade e traições que culminará com uma série de conflitos decisivos na primeira década do novo milênio, época em que o conceito de liberdade parece tão onipresente quanto fugidio.

Walter Berglund vive uma vida tão mediana quando a de Seymor Levov. Porém, sua rotina é quebrada quando se envolve num projeto de reservas florestais para salvar mariquitas azuis ameaçadas de extinção. Ele acredita na causa e é como se ele finalmente rompesse com a previsibilidade da vida. Poderia salvar o mundo! Só que tudo não passa de jogo político e ele é forçado a questionar todas as verdades que tinha construído.

Em Solar, de Ian McEwan, o protagonista Michael Beard, um físico gordo, de meia-idade e ganhador do prêmio Nobel; também coloca em questão o discurso do ecologicamente correto. Com uma narrativa fina e irônica, McEwan põe em cheque todo o virtuosismo dos politicamente corretos e transfere para o personagem principal tudo o que originalmente causou a crise da mudança climática: ganância, negligência e uma recusa teimosa em refletir sobre as consequências ou o futuro.

Seymor, Berglund e Beard são personagens com quem podemos facilmente nos identificar. Eles são o homem moderno.

Pastoral Americana, de Philip Roth; Liberdade, de Jonathan Franzen; e Solar, de Ian McEwan são da Cia das Letras.

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