360 – A Ciranda Mundial

Imagine estas pessoas: uma prostituta tcheca acompanhada por sua irmã, um casal britânico cuja esposa é infiel e cujo marido está prestes a cometer um adultério, um jovem casal brasileiro recém-separado, um criminoso sexual libertado da prisão e um senhor inglês à procura da filha desaparecida. O quê elas têm comum? São personagens que se cruzam no novo trabalho do Fernando Meirelles, chamado 360.

O filme vem a se juntar à linhagem de títulos com múltiplos personagens e tramas, dentre os quais se destacam Short Cuts (1993), de Robert Altman, e Magnólia (1999), de Paul Thomas Anderson. A exemplos desses, temos em 360 um grande elenco: Jude Law, Rachel Weisz e Anthony Hopkins são os mais ilustres, porém o filme conta ainda com Lucia Siposová, Gabriela Marcinkova, Jamel Debbouze, o americano Ben Foster e os brasileiros Juliano Cazarré e Maria Flor.

Depois da merecida consagração de Cidade de Deus (2002), Fernando Meirelles tornou-se o diretor brasileiro de maior visibilidade internacional. Aqui, ele se une ao renomado roteirista e dramaturgo inglês Peter Morgan, o mesmo autor de A Rainha (2005) e o Último Rei da Escócia (2006). No entanto, o roteiro do novo filme de Meirelles reúne mesmo semelhanças é com Além da Vida (Hereafter, 2010), o último trabalho de Morgan, dirigido por Clint Eastwood – com base em observações da vida, ambos falam sobre a dificuldade dos relacionamentos humanos. Contudo, 360 tem excesso de personagens, o que prejudica o desenvolvimento de alguns.

Meirelles faz um bom trabalho de direção. A sua câmera é muito inquieta, frequentemente atrás dos personagens e de suas vidas rápidas e confusas. A edição também é frenética, com belas transições entre as histórias (por exemplo, a junção de vários movimentos de câmera levando de um personagem a outro). O diretor usa ainda freeze-frames, congelando a imagem, e split-screens, dividindo a tela para mostrar ações simultâneas. Há sempre aviões passando, os meios de transporte são parte fundamental da história, e isso permite a criação de imagens interessantes.

E a condução do elenco é uniformemente boa. Todos estão muito bem, porém destacam-se três interpretações. Maria Flor é ótima, dominando a tela desde a sua aparição e contracenando bem com Hopkins. Ben Foster é, como sempre, excelente e intenso, transmitindo o conflito interior do seu personagem (suas cenas com Flor são carregadas de tensão e representam o melhor trecho do longa). E Anthony Hopkins tem um monólogo, ao final de sua participação, que nos reforça porque ele é um dos grandes atores da história do cinema.

Entretanto, falta a 360 um núcleo emocional forte, um personagem que passe por uma verdadeira mudança e, consequentemente, comova o espectador. O filme acaba evocando, às vezes, lembranças do poema “Quadrilha” de Carlos Drummond de Andrade: “João que amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria…”. E muitos dos personagens são tão indefinidos e intercambiáveis quanto os nomes da quadrilha. Falta ao filme um centro claro e definido. Short Cuts e Magnólia tinham, e por isso são grandes experiências cinematográficas e emocionais. 360 tenta, mas não chega lá.

Cotação: ★★★  Bom

3 thoughts on “360 – A Ciranda Mundial

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