Paraísos Artificiais: a vida precisa de estímulos

A realidade pode ser um lugar opressivo e esmagador, especialmente quando se é jovem. Por isso, talvez, os personagens de Paraísos Artificiais necessitem de estímulos sensoriais para escapar dela sempre que possível. Tais estímulos podem vir da música, do sexo ou das drogas.

Quando a narrativa começa, Nando (Luca Bianchi) sai da prisão, onde passou os últimos quatro anos por tráfico de drogas. Ele ainda se lembra de Erica (Nathalia Dill), a DJ que foi sua namorada. Em flashbacks, acompanhamos a época em que eles se encontraram em Amsterdam, na Holanda. O detalhe é que Erica já conhecia Nando antes, de uma festa rave numa praia paradisíaca, no Nordeste brasileiro. Foi a primeira festa na qual Erica trabalhou como DJ, quando ela tinha um relacionamento com Lara (Lívia de Bueno). Foi o período em que  eles também começaram a experimentar drogas (ecstasy, peiote…).

Tecnicamente, Paraísos Artificiais é irrepreensível. O filme tem um belo trabalho de fotografia, que contrasta o frio e os tons mais azulados da Holanda com o calor e as cores vibrantes do Nordeste brasileiro. As cenas externas são de uma grande beleza. A trilha sonora é vibrante e a edição dinâmica. E o roteiro cumpre a tarefa mais difícil: de interligar as três linhas cronológicas de forma clara – o presente, o passado em Amsterdam e o “passado mais antigo”, durante a rave. Mesmo com essa narrativa intrincada, o público nunca se perde ao longo da projeção.

Porém, o diretor Marcos Prado comete deslizes em outros aspectos do roteiro. O “mistério” em torno de uma revelação que Erica deveria fazer a Nando nas cenas em Amsterdam é um alicerce muito frágil no qual apoiar todo o resto da narrativa – se o segredo fosse revelado logo de início, o filme acabaria em menos de meia hora.  Esta “forçada” de barra acaba por esvaziar o restante da história de qualquer emoção. Os personagens também começam a se comportar de forma inverossímil próximo ao final, o que dificulta a tarefa do espectador de levar a sério o enredo apresentado na tela.

Embora Nathalia Dill segure bem o peso de sua primeira protagonista no cinema, a falta de química entre ela e Lívia de Bueno é visível. O diálogo muito expositivo que ambas são obrigadas a dizer nas cenas iniciais também não ajuda as atrizes. Consequentemente, as cenas entre elas parecem sobrecarregadas, e o espectador acaba não se importando com o destino do casal.

As cenas de sexo, contudo, são adequadas à narrativa e defendidas com coragem pelos atores. Aliás, todos exibem desempenhos consistentes (com exceção da já mencionada falta de química entre Nathalia e Lívia). O paralelo estabelecido pelo diretor é claro: sejam as drogas ou o sexo, tudo serve de estímulo para os personagens. Os “paraísos artificiais” do título são momentos de breve felicidade construídos por eles mesmos, nas suas tentativas de autoconhecimento e de compreender o mundo à sua volta. Fica a questão: todos os paraísos precisam ser artificialmente criados?

Ser adulto é duro. Por isso, os personagens de Paraísos Artificiais tentam adiar ao máximo sua entrada na vida adulta. Afinal, a juventude é como o efeito de uma droga: é maravilhosa, porém breve. E antes que se perceba, ela acabou. O filme do diretor Marcos Prado é bastante sensorial e repleto de energia jovem, mas termina sendo vazio também devido a alguns tropeços do roteiro. Quando o efeito passa, as pessoas veem sua realidade como ela realmente é, e o público vê as figuras de Paraísos Artificiais como são: autocentradas e com pouca profundidade.

Cotação: ★★  Regular

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