Selvagens: os Maus Contra os Piores

Oliver Stone sempre foi meio doido. Às vezes, as loucuras do diretor/roteirista renderam bons e impactantes filmes, como muitos dos que ele produziu nos anos 80 e 90. Às vezes não – Stone parecia tão absorto em suas viagens que algumas de suas produções ficavam com um ar exagerado, melodramático e vazio. Nesta última década, o histórico do diretor em longas ficcionais foi de altos e baixos.

 Selvagens, seu mais recente trabalho, representa mais um ponto baixo. Trata-se da história de dois caras e a mulher que eles compartilham. Ben (Aaron Johnson) e Chon (Taylor Kitsch) descobriram o método para cultivar a maconha mais potente do mercado, e o seu “empreendimento” os levou a ficarem ricos. Ben é o “botânico” inteligente e interessado em causas sociais. Chon é o homem de ação, veterano da guerra do Afeganistão.  Ofelia, ou “O” (Blake Lively), é a loiraça californiana que se divide entre eles, sem problema algum. Os três são jovens e querem mais é aproveitar a vida.

A decisão de querer expandir os negócios e envolver o cartel de Baja, no México, a princípio parece boa. Mas o cartel é inflexível e implacável, e logo um conflito se instala entre os americanos e os mexicanos. Quando O é sequestrada a mando de Elena (Salma Hayek), a chefe do cartel, os homens não se deterão por nada para tê-la de volta.

Em “Selvagens”, Oliver Stone retoma parte do estilo cinematográfico que o deixou famoso. A edição é frenética e a fotografia em alguns momentos alterna entre o colorido e o preto-e-branco. Alguns filtros também são utilizados, deixando as imagens mais saturadas. É um filme de fotografia “quente”, sublinhando não apenas as locações californianas, mas também o clima de sensualidade da primeira metade da história, quando conhecemos os protagonistas e percebemos como funciona o relacionamento (sexual, principalmente) entre eles.

“Selvagens”, como o próprio título implica, é um filme com personagens maus enfrentando outros piores. E aí reside o principal problema da narrativa: Stone não consegue fazer com que nos importemos com aquelas pessoas. Claro, o laço que une o trio principal é bem demonstrado, mas só isso não basta. Esses mesmos personagens não são tão desenvolvidos. Os coadjuvantes (entre eles John Travolta, como um agente corrupto, e Benicio Del Toro, como o assustador sr. Lado) estão num bom momento, mas também dão vida a figuras com as quais não é possível se conectar.

Uma leitura mais interessante do filme talvez seja possível, na medida em que ele parece, em alguns momentos, uma metáfora das relações entre Estados Unidos e América Latina. Os americanos são os empreendedores, querendo vender seu produto aos seus amigos do Sul. Eles têm recursos, e a postura dos personagens é exatamente essa, com Ben simbolizando as boas intenções que frequentemente abrem as negociações, e Chon representando a força militar, pronta para entrar em ação quando a persuasão falha. Os latino-americanos, por sua vez, têm suas próprias intenções e não se envergonham de “passar a perna” nos americanos. A conclusão é cínica e não aponta um vencedor claro na disputa.

Por mais qualidades que o filme tenha, ou mesmo que seja possível fazer uma interpretação interessante dele, “Selvagens” morre na praia porque os personagens não cativam. Numa história entre ruins e piores, e de tons exagerados como essa, é necessária uma porta para o espectador entrar. Oliver Stone, ao viajar nessa história, esqueceu-se de abri-la.

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