Serena: a Serviço da Metalinguagem

Ian McEwan conquistou milhares de leitores – e um tanto de fãs desavisados – com Reparação, adaptado para o cinema como Desejo e Reparação, por Joe Wright. Em seu último lançamento, Serena (Ed. Cia das Letras), o segundo livro com uma protagonista feminina, McEwan utiliza-se mais uma vez da metalinguagem para compor o romance.

O contexto é uma Inglaterra mergulhada na Guerra Fria, crise financeira, política e civil. Os hippies se multiplicavam, assim como a violência do terrorismo irlandês (IRA). Serena, uma jovem leitora ávida, linda e inteligente, acaba cursando matemática na prestigiada Universidade de Cambridge, onde se forma sem louvor. O futuro não reservava para ela nada além de um trabalho burocrático, não fosse o seu envolvimento amoroso com Tony Canning, historiador e professor da universidade.

“E embora fosse absolutamente verdade que Tony Canning acabou me recrutando para o MI5*, os motivos dele eram complicados e ele não tinha nenhuma sanção oficial. […] Ele ia mudar a minha vida e agir com generosa crueldade enquanto se preparava para embarcar numa jornada que não tinha esperança de volta.”

Já no MI5, ela é convocada a fazer parte da Operação Tentação. Seu serviço é convencer um jovem escritor, Tom Hayley, a ser financiado por uma instituição, a Escrita Sem Penas, que não passa de fachada. Seu relacionamento com ele, no entanto, logo evolui do estritamente profissional para o amoroso – o que desperta a inveja de Max Greatorex (personagem com o pior nome da história!), chefe e antigo caso de Serena. Ela, então, começa a viver uma dupla rotina, seja como amante de Hayley, seja como agente do Serviço Secreto. Enquanto é vigiada por Greatorex, escreve relatórios sobre Hayley, que, por sua vez, também observa Serena.

Como está bem avisado na contra-capa do livro, “Serena é um romance sobre espiões”. O que surpreende o leitor – de forma como McEwan sabe fazer muito bem e já demonstrou em Reparação – é quem faz o papel de espião e espiado. A partir daqui, fica difícil falar mais sem soltar um grande spoiler, que é o final do livro e o segredo que amarra toda a história. Também é o que faz valer a pena toda a leitura o livro, que é um pouco arrastada.

A protagonista, que tinha tudo para se tornar uma das minhas favoritas da literatura, não convence. Entretanto, fazer da protagonista uma personagem que carece de empatia talvez tenha sido uma escolha do autor do livro – como descobrimos no último capítulo (!).

* Serviço britânico de informações de segurança interna e contra-espionagem.

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