Clarice Lispector: a estranheza entre ser Escritora e Jornalista – Parte II

Correio femininoSe alguém ainda duvida, aí vai uma afirmativa: Sim, Clarice escreveu para páginas femininas. Vamos aos fatos: nem só de matérias factuais ela viveu. Por exemplo: quem já ouviu falar em Teresa Quadros, Helen Palmer ou Ilka Soares?!

Pois é, durante os anos de 1950 e 1960, Clarice escreveu textos que tratavam do universo feminino, tais como economia doméstica, comportamento e até receita culinária; tudo isso sob os pseudônimos citados acima, adotados respectivamente nos jornais Comício, Correio da Manhã e Diário da Noite.

Os textos fazem parte dos livros Correio Feminino (2006) e Só para mulheres (2008), ambos lançados pela Editora Rocco. Leia um trechinho de Correio Feminino:

“As pessoas que se comprazem no sofrimento, que gostam de sentir-se infelizes e fazer aos outros infelizes, jamais poderão orgulhar-se de sua beleza. O mau humor, o sentimento de frustração, a amargura marcam a fisionomia, apagam o brilho dos olhos, cavam sulcos na face mais jovem, enfeiam qualquer rosto. Essa é a razão porque a mulher, que cultiva a beleza, deve esforçar-se para ser feliz. Felicidade é estado de alma, é atmosfera, não depende de fatos ou circunstâncias externas.”

 Na fase áurea do Jornal do Brasil, Clarice Lispector foi colaboradora na mesma época que Carlos Drummond de Andrade, assinando uma crônica aos sábados, entre agosto de 1967 e dezembro de 1973. Foi também nesse período em que mais se deixou conhecer. Em sua crônica assinada no dia 21 de setembro de 1968, ela expõe: “Na literatura permaneço anônima e discreta. Nesta coluna, estou de algum modo me dando a conhecer.”.

A descoberta do mundoTais crônicas podem ser conferidas no livro de coletâneas, reunidas por seu filho Paulo Gil Valente, A Descoberta do Mundo (2008). Mais um trechinho:  

“Desde que me conheço o fato social teve em mim importância maior do que qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim. Muito antes de sentir “arte”, senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria era “fazer” alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar escrever para isso, por mais que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele – e, sem me surpreender, não consigo escrever. E também porque para mim escrever é procurar.”

Como jornalista, Clarice foi além do ofício. Mesmo trabalhando intensamente na sua ficção, escreveu cerca de 450 colunas, aproximadamente cinco mil textos, distribuídos em fragmentos de ficção, crônicas, educação de filhos e comportamento. Como entrevistadora, foram cerca de 100 textos. E somente para o Jornal do Brasil, publicou mais de 300 crônicas.

Faço minhas as palavras de Aparecida Maria Nunes, organizadora da nova coletânea de textos, Clarice na Cabeceira – Jornalismo, que em nota escreveu sobre a trajetória jornalística da autora: “Um jornalismo peculiar, em muitos momentos. Mas que, sem dúvida, pertence à história do jornalismo no Brasil”.

Vale a pena ler qualquer texto de Clarice Lispector, ainda mais quando escreve de uma forma ficcional a realidade dos brasileiros naquela época, que não mudou tanto nos últimos 30 anos.

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