O Homem da Máfia: os EUA como terra de bandidos

o homem da máfia

Se o cinema nos ensinou algo sobre o crime organizado, é que no fundo se trata de um negócio como qualquer outro. Mafiosos, via de regra, não saem por aí matando uns aos outros, a não ser que alguém dentro desse universo tenha perturbado a ordem econômica. O dinheiro manda, e isso fica totalmente claro em O Homem da Máfia.

Na trama, dois criminosos não muito espertos (vividos de forma soberba por Scoot McNairy e Ben Mendelsohn) aceitam fazer um serviço à prova de erro para um negociante: roubar um jogo de cartas protegido pelo mafioso Trattman (Ray Liotta). Trattman já havia roubado a própria jogatina anos antes, e seria obviamente o principal suspeito se algo assim acontecesse de novo. A ideia deles é tão simples que não há como dar errado – mas o assalto acaba colocando em crise a economia mafiosa. Todos os jogos ilegais e secretos são interrompidos, com medo de roubos semelhantes.

Entra em cena o assassino Jackie Coogan (Brad Pitt), encarregado de descobrir os assaltantes, e de punir exemplarmente Trattman. Coogan gosta de “matar suavemente, à distância”, como ele afirma e o título original do filme indica, e por isso prefere não ter conhecidos como alvos. Porém,  em tempos de crise, até essa regra pode ser desobedecida… Para ajudá-lo, ele chama o também assassino Mickey (James Gandolfini), um mafioso que já teve dias melhores.

O Homem da Máfia representa a segunda colaboração de Brad Pitt com o diretor Andrew Dominik, depois da obra-prima O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2007). É um filme curto  (pouco mais de uma hora e meia), grosso e direto. E violento também, claro.

O paralelo de Andrew Dominik entre a máfia e a “iniciativa privada” que fez os Estados Unidos crescer é claro. Em vários momentos da trama, vemos, numa TV ou no rádio, notícias sobre a recente crise econômica americana de 2008 – o filme se passa nesse período. Pronunciamentos de George W. Bush e do futuro presidente Barack Obama tentam explicar o porquê da crise e como o país vai sair dela, e isso se reflete na história dos criminosos vista na tela. Quando Coogan manda buscar Mickey de avião, seu contato (interpretado pelo veterano Richard Jenkins) afirma que ele deve vir de “classe turística”. Até os mafiosos tiveram de apertar seus cintos nesta época.

James Gandolfini em O HOMEM DA MÁFIAÉ um filme cínico, que vê “os Estados Unidos não como um país, mas como um negócio”. Contudo, como muitos exemplares do gênero de gângsteres, é também excepcionalmente bem realizado e defendido pelos seus atores. Dominik escala, em papéis chave, dois atores eternamente marcados por trabalhos mafiosos, e ambos estão excelentes: Liotta esteve inesquecível em Os Bons Companheiros (1990), e Gandolfini será para sempre o Tony Soprano, do seriado Família Soprano (1999-2007).

Ambos estão fantásticos, mas, de fato, Brad Pitt é a estrela do show. O carisma do ator carrega o personagem, sobre o qual descobrimos pouco durante a história. Pitt transmite com confiança a inteligência e o cinismo de Coogan. É curioso notar como o já cínico Coogan se torna ainda mais ácido ao longo da história. Ver seu conhecido Mickey em decadência e as indecisões dos seus superiores afetam-no de forma inegável, e Pitt transmite esse sentimento de forma sutil. O personagem é o profissional contumaz, e quando ele rompe sua regra de “matar suavemente”, percebemos que ele ignorou um dos seus poucos princípios em nome dos negócios.

Princípios sempre subordinados ao dinheiro, como se observa na história.  Perturbar a economia pode ser fatal e muitas vezes é o maior delito que se pode cometer nos Estados Unidos. O Homem da Máfia é uma trama de gângsteres contada de forma diferente e ousada. Na verdade, os realizadores usam a máfia como alegoria do capitalismo selvagem. É um filme desencantado, mas inegavelmente sensato.

Killing-Them-SoftlyFicha técnica

Título: O Homem da Máfia (Killing Them Softly)

Dirigido por: Andrew Dominik

Gênero: Suspense

Ano: 2012

Nacionalidade: Estados Unidos

Avaliação: ★★★★  Muito Bom

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