Quando sua inteligência atrapalha a vida


Há uma mistura de tragédia e comédia no que escrevo.”
(Martin Page)

Como me tornei estupidoTem gente que nasce velha de espírito. Sentindo-se, precocemente, gasto e desiludido com as injustiças e a mediocridade no mundo, Antoine, no auge dos seus vinte e poucos anos, era um desajustado na sociedade, do tipo que não tinha a impressão de viver verdadeiramente. Um rapaz de poucos amigos (quatro, para ser mais precisa: Ganja, Charlotte, Aslee e Rodolphe), de uma admirável intelectualidade – com um currículo universitário labiríntico – e de parcos recursos financeiros, pela vida modesta e socialmente justa que vivia. Uma espécie de anti-heroi.

Nesta história, viver é preciso; pensar não é preciso. Na expectativa de ter uma vida mais tranquila, o protagonista do romance – talvez um alter ego do autor francês Martin Page – decidiu investir na idiotice como uma forma de sobrevivência, a fim de ser plenamente aceito no mundo. Diagnosticando a inteligência como uma doença, um desvio na evolução, Antoine estava disposto a encontrar a cura e a salvação para os seus males. E tinha um plano perfeito: “cobrir o cérebro com o manto da estupidez”, anular-se, renunciando ao pensamento como uma forma de viver a vida simplesmente.

Por meio da crise existencial do jovem protagonista, Martin Page faz uma pesada crítica ao capitalismo, à sociedade de consumo e à indústria de massa, só que ao contrário, fazendo jus ao lema que diz: não pode contra o inimigo, junte-se a ele. Afinal – e como Antoine, ironicamente, faz alusão no texto –, as formigas vivem em sociedades-colônias muito bem organizadas, dividas em castas – sendo a maioria “operária” – e trabalhando incessantemente. São felizes e tranquilas. Antoine queria ser uma formiga entre as formigas.

A narrativa conduz a questão de o quão difícil pode ser a vida em sociedade quando se tem um neurônio a mais. Para livrar-se do calvário de sua formidável inteligência, Antoine foi aos extremos. Tentou, literalmente, se tornar alcoólatra – já que esta seria, ao menos, uma doença socialmente aceita – e perseguir a promissora filosofia da embriaguez; foi em vão. Antoine fez vergonha com apenas meio copo do álcool escolhido. Inspirando-se na fuga de personalidades que ele admirava, chegou a frequentar um curso de suicídio, pois “como ele nunca tivera verdadeiramente a impressão de viver, não tinha medo da morte.” Mas o projeto foi inusitadamente abortado. Seu penúltimo plano foi ainda mais assustador e radical. Mais Frustrações.

Em uma derradeira noite, Antoine abraçou, então, a importante decisão de sua vida: tornar-se estúpido. Passou a madrugada em claro escrevendo uma carta ou manifesto de rendição para entregar aos seus queridos e estranhos – porém sempre gentis –, amigos, os quais poderiam servir de provas, testemunhas ou alicerces caso algo desse errado em sua missão.

Enquanto praticava sua última alternativa e esperança, ao administrar boas doses do tranquizante e antidepressivo Felizac, que foi prescrito pelo seu médico-amigo de longa data, um novo mundo se abriu diante dos seus olhos de Antoine. Ganhar muito dinheiro, gastar em bens de consumo inúteis, esculpir um corpo desejável e ter muito sucesso passaram a ser sua nova empreitada, enquanto sua consciência dormia. Tudo seguia conforme o planejado até que, vulnerável ao seu próprio veneno, Antoine passa por um incrível resgate.

Tratando-se de um romance crítico, uma sátira que faz alusão à cultura de massa, acredito que esta seja uma leitura universal, atemporal e oportuna para o sinal dos nossos tempos. Faz refletir. Com uma linguagem poética (“O silêncio abriu as suas grandes e frágeis asas de borboleta no quarto“) e repleto de cenas perspicazes, divertidas e, em alguns casos, grotescas, este livro me proporcionou múltiplas sensações no decorrer de suas pouco mais de cem páginas. A capa apresenta uma edição gráfica diferenciada, simples, mas instigante, e traz elementos que dialogam com o texto.

Como me tornei estúpido - martin pages - capas

Propositalmente ou não, Martin Page nos oferece um final nada convencional e, por que não dizer, estúpido e que beira ao surrealismo. Fiquei surpresa e um pouco confusa com a última parte, mas o fio condutor da história e as piadas ao pé do ouvido valem a recomendação da leitura, além de deixar uma dica: para viver (bem) em sociedade, não basta ser inteligente, tem que ser esperto!

Nota 1: A obra teve adaptação para o teatro e para o cinema.

Nota 2: O bestseller foi escrito pelo francês Martin Page, aos 24 anos. Hoje, o autor tem 38 anos e diz ter dúvidas sobre saber, exatamente, o que estava fazendo quando escreveu este livro. Assim como muitos dos que enveredam pelo rico e ao mesmo tempo solitário caminho da literatura, Martin Page acredita que “escrever é estar um pouco à parte da sociedade.” Podemos dizer que há um pouco de Antoine e deste isolamento em cada escritor que se permita uma imersão.

Jéssica Lauritzen - assinatura PNG - VALE ESTA

2 thoughts on “Quando sua inteligência atrapalha a vida

  1. Oi Jess,
    adorei a resenha! Li esse livro na época em que foi lançado e gostei muito. É uma história inusitada e engraçada. Lembro que fiquei um pouco frustada com o final também…

    bjs,
    Amanda

    • Obrigada, Amandinha! Fiquei curiosa sobre ele a partir da dica de outro blog há um tempo atrás. O livro é uma graça e já separei para dar de presente🙂

      Beijos,
      Jess

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