O labirinto literário de Daniel Galera

“[…] qualquer personalidade é uma ficção”.

Cordilheira - Daniel GaleraO trecho acima resume bem a ideia central do livro de Daniel Galera, primeiro da série Amores Expressos, da Companhia das Letras. Se considerarmos que, desde a infância, construímos nossa personalidade em comparação com a de outras pessoas, o que somos não passa de uma ficção. Essa premissa é levada ao extremo em Cordilheira, livro ganhador do Prêmio de Melhor Romance da Fundação Biblioteca Nacional, em 2008.

Seja agregando qualidades e maneirismos que consideramos positivos, ou evitando repetir aquilo que consideramos negativo, somos aquilo que imaginamos ser. Muito confuso? Isso sou eu tentando não entregar um dos principais ganchos do livro. Deixa eu explicar – sem dizer muito da história. Uma frase que me marcou muito no romance foi essa:

“Minha mãe foi meu primeiro personagem”.

Anita van der Goltz Vianna, personagem de Galera, tem uma série de personagens que informam a sua personalidade. A mãe, que morreu em seu parto. O pai, que enfiou o carro num poste. As amigas, deprimidas cada uma à sua maneira. O namorado, que não quer um filho. Magnólia, a personagem do primeiro e único romance de Anita, que tinha rendido boas críticas, mas que com o qual ela não se reconhecia mais. As semelhanças com esta última ganha contornos surreais a partir do momento em que Anita encontra um tipo misterioso chamado José Holden, com quem se envolve romanticamente.

A discussão sobre a fronteira entre realidade e ficção e sobre o quanto do autor está num personagem (e vice-versa) é o fio condutor do livro. Como explica galera numa publicação do jornal A Gazeta do Povo:

“Decidi que queria escrever um romance ao redor de uma intriga literária em que noções de realidade e ficção se borrassem. Tratar das formas como a literatura pode interferir na vida de autores e leitores, dos mistérios e enganos que cercam a vida literária. Imaginei uma jovem autora às voltas com um grupo de escritores excêntricos que se interessa nem tanto por ela, e sim por um de seus personagens.”

Os leitores escolados vão se interessar pela discussão. Afinal, quem nunca jurou conhecer um autor (ou personagem) como um velho amigo após ler toda a sua obra? Em Cordilheira, tanto Anita, a personagem de Galera, quanto Magnólia, a personagem de Anita, estão fugindo do passado e forçando um recomeço. Tema que parece ser um tema recorrente no trabalho de Galera, vide Barba Ensopada de Sangue, que resenhei aqui. Em Cordilheira, no entanto, senti que o debate literário acabou prejudicando na construção dos personagens, que não pareceram tão bem desenvolvidos quanto no Barba Ensopada de Sangue.

A proposta do “Amores Expressos” era enviar 16 escritores brasileiros para 16 cidades diferentes durante um mês.  O resultado seriam livros com as experiências de cada um em torno do tema “amor”. No romance de Galera, a cidade de Buenos Aires serve de contexto, mas não foi determinante para a história, que poderia se passar em qualquer lugar do mundo. É interessante, no entanto, ver como a experiência de ser um turista estrangeiro numa cidade nova entrou na narrativa. Assim como Anita, também era a primeira vez de Galera na cidade. Como no trecho abaixo:

“Fazendo conversões a esmo de um quarteirão para o próximo, eu só pensava que minha solidão devia ter chegado ao clímax, que todas as minhas impressões durante aquela caminhada noturna não tinham valor nenhum se não pudessem ser compartilhadas com alguém, e eu não conseguia pensar em ninguém para compartilhar nada.”

Cordilheira foi o meu segundo livro de Daniel Galera e pretendo continuar no meu projeto de ler todos os livros dele. Recomendo muito.

Amanda - assinatura PNG

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