Junky: entre na fissura com William S. Burroughs

Em Na Estrada, livro de Jack Kerouac que já mencionei num post do ano passado, vários escritores responsáveis pela construção da literatura beat aparecem como personagens. Um deles, Old Bull Lee/ William Burroughs, é uma figura vista com reverência pelo jovem Kerouac, mas que intriga pela forma com que fala e pela maneira nada ortodoxa que escolheu para viver. No romance, conhecemos pouco de Burroughs. Kerouac o descreve assim:

“Seria preciso a noite inteira para contar tudo sobre Old Bull Lee; digamos somente que ele era professor; […] Arrastara seu comprido corpo magro pelos Estados Unidos, e boa parte da Europa e do norte da África, nos bons tempos, só para ver o que estava acontecendo; […] Fazia tudo isso apenas para viver a experiência. Agora, seu interesse mais recente era o hábito das drogas. Por isso estava em Nova Orleans, esgueirando-se pelas ruas com sujeitos de reputação duvidosa, rondando bares suspeitos. […] Era um cara acinzentado, com uma aparência impossível de descrever, e que passaria despercebido na rua, a não ser que se olhasse de perto e se visse sua louca caveira ossuda e sua estranha juventude — um sacerdote do Kansas envolto em mistérios exóticos e chamas fenomenais. Tinha estudado medicina em Viena, estudara antropologia, lera de tudo; agora, estava pronto para o grande trabalho de sua vida”.

A obra mais conhecida desse escritor maldito é Naked Lunch, seguida de Junky, ambas de caráter autobiográfico. O último, publicado em 1953, ganhou nova edição no Brasil pela Cia das Letras. A capa de cores vibrantes e design moderno dialoga com o tema, moderno para a época e que ainda hoje é tratado com pudores.

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Burroughs narra de forma quase científica as consequências da dependência e da privação das drogas, além de apresentar uma sociedade que até hoje vive à margem e é pouco conhecida – a dos viciados. Burroughs, ele próprio usuário de drogas pesadas, percebe a mudança pela qual passa a sociedade americana da época, que logo entraria na era do hedonismo barato dos anos 1960 e 1970. Ele também coloca em discussão temas que estão até hoje em debate:

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“Maconha não induz ninguém ao crime. Nunca vi ninguém ficar belicoso sobre efeito do fumo. Fumetas são uma raça de sociáveis. Sociáveis demais pro meu gosto. Não entendo por que as pessoas que acusam maconha de instigadora de crimes não vão mais longe e pedem também a proibição do álcool. Todos os dias você vê bêbados cometendo crimes que não aconteceriam se estivessem sóbrios”.

Burroughs não tem a poesia literária que parece tão natural à Kerouac, mas é justamente a narrativa simples de Junky que torna o livro palatável. O tema controverso faz parte dessa narrativa em primeira pessoa, que Burroughs adota como quem conversa com o leitor. Um livro para quem quer conhecer um pouco mais os EUA dos beats.

Amanda - assinatura PNG

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