Literatura: Paixão, morte e obsessão em O Morro dos Ventos Uivantes

por Fabiola Paschoal


“I`m coming back, love. Cruel Heathcliff! My one dream, my only master.

Too long I roam in the night. I`m coming back to his side to put it right.

I`m coming home to Wuthering ,Wuthering, Wuthering Heights.

Heathcliff, it`s me, Cathy, I`ve come home, I`m so cold.

Let me in your window… “

Há, na literatura, histórias de amor lindas e inspiradoras, recheadas de casais que ultrapassam mil barreiras em busca da felicidade. Todo mundo tem uma preferida, e eu mesma me derreto por romances bem açucarados. Mas, e quando a paixão é tão forte que vence até mesmo… a morte? Pode parecer macabro ou sombrio, mas este é o mote de um clássico britânico que, mesmo publicado no século XIX, continua atual: O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë.

Antes de eu começar a resenha, porém, devo lembrar a você que O Morro dos Ventos Uivantes não é um romance de época aguinha com açúcar, em que os protagonistas comem o pão que o diabo amassou antes do final feliz. Portanto, se você está esperando diálogos do tipo “você é a minha vida agora”, este livro não é para você. Digo isto porque, como a obra de Brontë é a favorita do casal de Crepúsculo, muitas fãs da série acabam se decepcionando com a leitura. O Morro dos Ventos Uivantes não é, na verdade, uma história sobre amor, mas sim sobre paixão doentia, aquela que beira à obsessão. Talvez por isso cause tanto estranhamento em leitores desavisados.

O casal principal do livro é composto por Catherine, filha mimada do rico dono da propriedade O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, no original), e Heathcliff, que foi adotado pelo pai da mocinha quando menino. Muito cedo Catherine e Heathcliff apaixonam-se. Porém, após a morte do pai de Catherine, seu irmão mais velho revela-se um tirano e passa a comandar Wuthering Heights com mãos de ferro, tratando Heathcliff como um mero criado, humilhando-o sempre que possível. Começa a nascer aí um sentimento de ódio, porém Heathcliff agüenta as agressões por causa de Cathy.  Ela, por sua vez, ama Heathcliff profundamente, mas, orgulhosa, não pode suportar a idéia de relacionar-se com um criado rude e mal-educado.

Assim, quando recebe um pedido de casamento do jovem Edgar Linton, proprietário da fazenda vizinha, Catherine não hesita em aceitar, pois ele vinha de família importante e tinha muito dinheiro. Decepcionado com a traição, Heathcliff deixa Wuthering Heights sem se despedir. Tempos depois, quando Catherine e Edgar já estão casados, Heathcliff volta rico e com sede de vingança. Depois de retomar a casa de Wuthering Heights, ele volta a se encontrar com Cathy, que finalmente se arrepende de ter rejeitado Heathcliff. O casal ensaia uma reconciliação, mas Catherine acaba morrendo de parto antes disso.

A partir daí, o que acontece é uma sucessão de atos cruéis e vingativos de Heathcliff para com Edgar Linton, a filhinha homônima de Catherine e até mesmo seu próprio filho. Juro para você que, em certos momentos, as atrocidades cometidas por ele eram tantas que eu tinha vontade de fechar o livro. Não faltam brigas, barracos e armações, pois, para se vingar dos maus tratos e das humilhações sofridas durante toda a vida, Heathcliff não mede esforços. E, mesmo depois da morte de Cathy, ele continua fiel e devotado a ela, visitando seu túmulo regularmente e “conversando” com a amada. Tanto que uma das cenas mais lindas do livro é justamente no começo, quando o suposto fantasma de Catherine vai bater à sua janela e ele chora como um bebê, despindo a máscara do homem mau e vingativo.

Como eu já disse, não creio que o que Heathcliff sentia por Cathy era exatamente amor. Tinha mais a ver com uma paixão que, mesmo após sua morte, continuava a arder. Ela, por sua vez, era egoísta e mimada, e a única verdade em sua vida era o amor que sentia por Heathcliff. Este amor, contudo, não foi o suficiente para fazê-la abrir mão de um casamento vantajoso. Creio que, no fim das contas, a paixão por Heathcliff estivesse ligada ao controle e à possessão, já que ela era mais rica e, portanto, mais poderosa do que ele.

Crueldades e paixões obsessivas à parte, O Morro dos Ventos Uivantes é um livro que todo mundo deveria ler algum dia. O livro é extremamente rico e bem escrito, com uma narrativa que alterna entre a primeira e a terceira pessoa, uma inovação para a época. É uma pena que Emily Brontë não tenha vivido o suficiente para escrever mais romances, porque este com certeza virou um dos queridinhos da minha estante. Nem preciso dizer que recomendo muito, né?

Antes de terminar, só um adendo: Se puder, evite a edição publicada recentemente pela Lua de Papel! O texto foi totalmente pasteurizado para ficar mais fácil de ler, e a tradução é muito pobrinha. A linguagem utilizada é simples e coloquial, bem diferente do original. Claramente uma edição caça-níquel feita para atrair as fãs de Edward, Bella e cia. Sugiro esta edição aqui, com tradução da Rachel de Queiroz.

A propósito, O Morro dos Ventos Uivantes é tão famoso que virou filme E música. Kate Bush fez uma canção baseada no livro, e eu acho sensacional. Mas a minha versão favorita é a do Angra. Deixo aqui um vídeo da banda tocando Wuthering Heights com vocais de Tarja Turunen no Rock in Rio. Preste atenção na letra: é o espírito da Cathy dialogando com Heathcliff. Lindo demais. *-*


Mil desculpas pela resenha super longa. Nos vemos na próxima semana. =)

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7 thoughts on “Literatura: Paixão, morte e obsessão em O Morro dos Ventos Uivantes

  1. Fabíola, que linda sua resenha! Adorei!

    Capturou bem a mensagem do livro. Ele é profundo, com uma história que não é marcada apenas pelo amor lindo de um casal. É um amor sofrido porque envolve outras coisas. É bem estranho ter uma história de amor com tanta crueldade e vingança envolvida, mas com certeza a cena dele na janela, conversando com o espírito da Catherine, foi o diálogo que me fez chorar e reler várias vezes.

    E essa imagem da capa é o do livro que vc leu? É linda. Adoro capas antigas.

    E o que você achou do filme?

    Damn it, mais um livro que preciso ter na prateleira, mesmo já tendo lido!

    Ah, e não dá um arrepio ouvir essa música do Angra e pensar no livro? 😀

    []s

    • Obrigada, que bom que gostou. 😉

      Quem me dera ter essa capa, a minha é justamente a que eu não recomendo hahaha mas eu tenho a que eu indiquei no Kindle e é BEM MELHOR. Quero comprá-la e desapegar da edição horrorosa que tenho. Mas essa antiga é linda, mesmo!

      Não vi o filme ainda, não me mate. :X

      E eu AMO Wuthering Heights, mt boa a música, ainda mais depois de ler o livro.

  2. É realmente importante explicar a diferença desse livro para os clássicos da época. Eu gostei muitíssimo da leitura pq fazia uma comparação com obras de Jane Austen, por exemplo, que escrevia os tais “romances açucarados”. Há um abismo de diferença entre Brontë e Austen, realidades, esperanças e vivência totalmente divergentes.

    Gostei muito da resenha e tb indico o livro.

    Beijos.

  3. Pingback: Literatura: Os Dez Mais de 2011 «

  4. Texto bem bacana, fez jus ao livro! Só um adendo… Quando Kate escreveu a música ela ainda não tinha lido o livro. Ela disse que escreveu quando bem novinha tinha saído de uma sessão de cinema do filme… 😉

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